Segunda-feira, 12 de janeiro de 2026
Redenção

Fantástico expõe esquema de corrupção na Justiça do Pará com áudios, propina e decisões manipuladas

Mensagens obtidas pelo Ministério Público do Pará (MP-PA) apontam que um delegado da Polícia Civil e um ex-diretor metropolitano da corporação tratavam a extorsão de investigados como fonte de lucro e falavam abertamente sobre divisão de propina.

Em uma das conversas, o delegado afirma estar “cansado, mas a fim de roubar alguém”, ao comentar o funcionamento do esquema.

Segundo a investigação, o grupo atuava desde 2021 e transformava inquéritos policiais em oportunidades de cobrança ilegal. Um dos episódios analisados ocorreu em janeiro de 2024, após um atropelamento em Belém. Familiares do motorista relataram a cobrança de R$ 25 mil para aliviar a situação do suspeito.

A denúncia chegou ao delegado por meio de uma mensagem enviada por uma parente do motorista, que o reconheceu em reportagens. Para o MP, o episódio é representativo da forma como o esquema operava: suspeitos de casos com repercussão eram escolhidos e, em troca de vantagens como o relaxamento da prisão ou condução favorável do inquérito, eram exigidos pagamentos em dinheiro.

As investigações indicam que o delegado mantinha diálogo constante com seu superior imediato à época, o então diretor metropolitano da Polícia Civil. Nas mensagens, os dois comentam valores de propina e falam sobre ganhos que poderiam ter obtido se tivessem permanecido mais tempo em determinadas delegacias.

O MP afirma que o diretor também recebia parte dos valores e auxiliava na transferência do delegado para unidades consideradas mais “lucrativas”. Em um dos diálogos, um escrivão afirma que a mudança permitiria que o grupo ficasse “bem, sem bronca”. Em outra conversa, o delegado classifica a atuação do grupo como um “investimento a curto prazo”.

As investigações começaram há cerca de um ano, após a apreensão do celular do delegado. Além dele e do promotor, um juiz também é investigado por suspeita de receber propina para favorecer o esquema. Entre os episódios apurados está a operação Truque de Mestre, que mirou influenciadores de jogos de azar.

O delegado foi afastado do cargo, mas continua recebendo salário de cerca de R$ 28 mil.

(Por Fantástico. Foto: MPPA)